Da construção de uma nova ágora

 

Ana Pereira, 2014

“As espirais são criadas inicialmente por uma força centrípeta que se move da periferia para o centro que, quando atinge o seu estado mais contraído não tem alternativa senão transformar-se na sua oposta, uma força centrífuga que se estende desde o centro até à periferia.”

A periferia da cidade é de facto como a minha aldeia-memória.
No inverno tudo é cinzento, castanho e verde-musgo.
A chuva quando cái, escorre por todo o lado sem abrigo possível e há uma estranha ordem que cresce pela desordem adentro.
Desconfio dos não-lugares enquanto modelo da fotografia documental contemporânea (tempo presente).
Interessa-me o conceito do antropólogo Marc Augé porque fala do que experienciamos a cada dia, da realidade aí fora.
O não-lugar enquanto nova configuração social, espaço de passagem e de ninguém.
Um espaço não-relacional, não-identitário e não-histórico, por oposição ao espaço antropológico, criador de identidade e de relações interpessoais.
E é aqui que me encontro com o trabalho da Catarina Broken Ground.
Um chão em fragmentos, com a esperança que aí reside de construção.
A Catarina desenvolveu esta série, um corpo ainda work-in-progress, no âmbito do European Borderlines, estabelecendo uma narrativa visual entre Portugal e Turquia.
A questão da fronteira ergueu-se ao olhar aquela que se delineava entre cidade e periferia, nestes dois países situados nas linhas fronteiriças de uma Europa alargada.
Se por um lado são visualmente semelhantes os desenhos de periferia em Portugal e na Turquia, também é semelhante a ocupação e os posicionamentos humanos nesses espaços homogeneizados.
Três linhas configuram-se no espaço maior que é a periferia:


1: a paisagem construída, definida pelos prédios
2: o natural, nem desenhado em paisagem/jardim, nem vivo em paisagem/natureza, mas construindo um terceiro híbrido a paisagem/verde-betão
3: o espaço intermédio, o espaço construído pela vivência humana do quotidiano

 

Se a cidade comporta já as regras e limites da utilização humana, na periferia este espaço está em aberto e é construído quotidianamente pelo homem. É nesse espaço intermédio que acontecem as imagens de Broken(play)Ground, estas paisagens com retratos que falam, através das palavras/notas que nos dão a voz do outro retratado. Os retratos acontecem numa linha /pórtico que divide o-de-cá e o-de- lá, sendo em última análise as pessoas os criadores/ guardiões dessa fronteira.
Estas imagens devolvem-nos a ideia de que a linha de liberdade no quotidiano da periferia é criada pela quebra, pela rutura.

 

Sendo a narrativa subjacente à série Broken Gorund a da construção de um bairro imaginário, o mesmo em Portugal e na Turquia, indistinto a nível de demarcação fronteiriça e de nacionalidade, mas personalizado e identitário. Desta forma as imagens de Broken Ground são as de um espaço que não se mantém um não-lugar. Porque ao ser habitado pelo homem, vai sendo preenchido com usos, memórias, significado e tempo. As linhas basilares da construção de lugar.
 

Na narrativa fotográfica de Broken Ground materializa-se também a questão de que as definições de espaço público e privado estão em mutação, pelo crescendo de importância que a esfera privada assume. Dando corpo às palavras de David Bate, quando afirma que a fotografia no contexto da paisagem introduziu um novo ideal. Uma visão não-estética (afastada dos conceitos de pitoresco e de sublime) e que procura outras significações, sociais, políticas, económicas, ideológicas e sim, pessoais.