Identidades Orofaciais by Olívia da Silva

Atualizado: Fev 22


Curator: Olívia da Silva

Photography: Ana Catarina Pinho

Production: Miguel Pais Clemente

Design: Bárbara Veiga



Identidades Orofaciais


Um dos problemas de se discutir a fotografia é que qualquer que seja o tema de discussão este vai sempre em direcções opostas. A fotografia está presente em vários aspectos da nossa vida, sob diversas formas, histórias, legados e bagagens. O importante será delinear os aspectos-chave e a morfologia de como tudo funciona.


É necessário apresentar algumas oposições que estiveram sempre presentes na história da fotografia desde 1839 até aos dias de hoje. A oposição centra-se nas fotografias que podem ser feitas num estúdio, e consequentemente construídas, e as que são tiradas na rua. Existem formas mais explícitas desta oposição: a tradição do documentário, que capta fotografias do dia-a-dia, e imagens que são construídas em estúdio. É relevante pensar o que sugere a metáfora “fotografia de palco” que a Ana Catarina Pinho recorre para estabelecer uma ligação triangular entre a fotografia, a música e a medicina.


Existe uma diferença entre documentos e imagens: os primeiros representam fotografias que podem ser gravadas, documentadas e pensadas, as segundas dizem respeito a algo que pode ser construído. Estes conceitos são peculiares e podem, por vezes, mover-se de direcção. É este desafio que é estabelecido em Identidades Orofaciais de Ana Catarina Pinho que recorre ao retrato de músicos de instrumentos de sopro da Escola Superior de Música , Artes e Espectáculo , do Politécnico do Porto.


Todas estas oposições podem-se completar com uma citação do artista Jeff Wall: “Existem dois mitos sobre a fotografia. O mito que diz a verdade e o que não diz.” Em relação ao segundo mito, estamos habituados, na cultura popular, a que a fotografia seja um registo exacto dos acontecimentos. Porém o que Jeff Wall sugere (bem como outros fotógrafos) é que a fotografia se traduz numa imagem, que tal como outras imagens, é construída e segue uma série de tradições e possibilidades técnicas. Contudo, o que procuramos é uma imagem e não a representação literal dos acontecimentos e das coisas em geral.


As pessoas ligadas à ciência em 1839 – aparecimento da fotografia - viam a fotografia como algo evidente, como uma forma de capturar os acontecimentos do mundo, as coisas como elas são, como um meio de fornecer informação e como a produção de uma imagem sem a aparente intervenção humana. A câmara capturava a realidade de forma imediata – tradição do documento fotográfico no período de 1839 e 1850 onde a fotografia tinha um lugar de destaque.


Não demorou muito para surgir a outra versão da fotografia – a fotografia de estúdio. Como exemplo podemos verificar a imagem de Henry Robinson de 1860, através de fotomontagem, juntou vários negativos. Henry Robinson trabalhou em estúdio, fotografou, em separado, vários grupos de pessoas, várias paisagens e depois juntou todos estes elementos. Tudo isto muito antes de aparecer a fotografia digital.


Podemos então distinguir a oposição entre documentos e imagens e entre uma fotografia que é sobre evidência e informação e uma fotografia que trata de imagens. Na arte contemporânea temos o equivalente de Henry Robinson que é Jeff Wall. Actualmente, as imagens fotográficas são vistas como uma composição activa, forma estilística sendo que operam com um padrão estético bastante elevado assim como com as convenções.


Enquanto que as práticas de arte são concebidas tradicionalmente, o documento é algo que trabalha com a ideia de transparência, com a cópia literal da realidade e visto como objectivo. Foi utilizada no início do século dezanove pelos conceitos científicos centrando-se na ausência de alguém. A fotografia era vista como uma espécie de prática e que era viável sem a presença de alguém.


Um facto importante sobre os documentos é que estes não eram considerados arte, não eram feitos e idealizados. Todos este valores é que davam importância e utilidade aos documentos fotográficos. Estavam relacionados com a ausência do fotógrafo, com o facto dos documentos fotográficos serem directos, literais e serem uma cópia. Combinando todos estes factos, a arte teórica do século dezanove referia que tudo isto era insignificante para a arte. Os fotógrafos afirmavam que a fotografia não era isto e como era arte poderia haver lugar para a literalidade directa.


No início do século vinte surgiram mudanças que se traduziram no avant-gard europeu e americano. A categoria de documento fotográfico começou a tomar forma. O que era negativo passou a ser positivo sendo que a avant-gard europeia absorveu estes aspectos do documento. Assistiu-se também a uma mudança morfológica.


Por volta de 1970 a mentalidade de alguns artistas começa a mudar influenciando a forma como a fotografia é vista. Começou-se a examinar, criticar as assunções que a fotografia tem enquanto forma evidente, ou seja, por as coisas em questão. Há lugar também à ironização do conceito de documento e este torna-se a imagem do escrutínio artístico e também uma iamgem de dúvida. A desmistificação pós-moderna do documento foi importante porque demonstrou os problemas da fotografia, das suas práticas e das suas assunções base.


No projecto Identidades Orofaciais, de Ana Catarina Pinho, somos convidados a observar o registo visual de rostos que habitualmente permanecem ligados a um determinado movimento orofacial. São estes rostos monocromáticos que nos prendem ao facto que por trás deles existe uma identidade individual e colectiva. O rosto colectivo é reforçado pelo registo fotográfico geométrico proporcionado pelo uso do médio formato quadrado 6x6 em todos os rostos. O rosto individual serve-se de um enquadramento apertado e aproximado para centrar o olhar do espectador na face do interprete e na destreza facial que o mesmo desempenha para obter a melhor sonoridade.


Ana Catarina Pinho no Projecto Fotográfico Identidades Orofaciais é a forma de transmitir de forma imaginativa as mudanças operadas na fotografia contemporânea sobre as novas formas de desenvolver o documental fotográfico, por um lado recorre ao preto e branco mantendo a técnica fotográfica para dramatizar e enfatizar as expressões do rosto e por outro recorre à construção da imagem através de um acordo entre fotógrafo e fotografado. Tudo é construído e acordado. Um acordo entre a fotografia e a música, onde a fotografia participa na arte e, na ciência através da música.


Existe uma mudança de ênfase na fotografia e segundo Allan Sekula, a fotografia é construída. O que assistimos cada vez mais é a mudanças no campo da fotografia documental. Hoje deve, sem dúvida, ser posta em causa a forma como vemos a fotografia, o documento e a própria história.



Comissária do Projecto ‘Identidades Orofaciais’ – NOMADIC 2010


Olivia Da Silva

Coordenadora do Mestrado em Comunicação Audiovisual,

Fotografia e Cinema Documental , ESMAE/IPP



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